NORMALISTA, MILITANTE E MÃE.

By | 13.5.18 Leave a Comment



Há dois anos decidi fazer o curso normal, pois eu tinha um filho de 2 anos e eu gostaria de ter uma profissão que não me fizesse ficar tanto tempo fora de casa ao ponto de não vê-lo crescer. Então, devido a greve dos professores, consegui entrar no meio do ano de 2016 pro CIEP 128 MAGEPE MIRIM.

A primeira coisa que me intrigou foi o questionário que o diretor fez pra minha amiga e eu: "Sabem que o curso é integral né? Vão conseguir estudar por 2 anos sem trabalhar? E você já tem com quem deixar seu filho? Completou dizendo - Não pode trazer criança pra cá exceto em dias de evento". Fizemos nossa matricula, porém horrorizadas com o "incentivo", afinal, duas mulheres mais velhas determinadas em estudar com adolescentes, essas perguntas foram um banho de agua fria.

A falta do café da manhã num curso integral, água quente e suja nos bebedouros, banheiros quebrados sem descargas e torneiras pra lavar as mãos, salas sem ar condicionado e ventilador, cobrança de uso do uniforme completo para participar da aula de certos professores, cobrança de dinheiro o tempo todo pra trabalhos sem fundamento, professores faltosos e que não davam matéria, me fizeram frequentar constantemente a sala deste diretor.

Me interessei em fazer parte de algo que pudesse mudar a realidade daquela escola. Tentei o conselho escolar, mas já tinha sido eleito, então, perguntei como fazia pra fundar um grêmio estudantil porque a gente precisava fazer alguma coisa. Fui tratada como uma velha, louca, mãe de filho querendo se meter nos problemas que não eram meus. Alguns professores, de forma doce, tentaram me convencer de que eu deveria cuidar do meu filho, como se eu já não fizesse isso, como se o motivo de eu estar alí não fosse esse.

No meio de tanta confusão só por causa da fundação de um gremio estudantil, eu perguntei ao diretor: Qual é o seu medo? O medo de todo opressor que vê o oprimido se libertando. Alí surgiu O GREMIO ESTUDANTIL A RESISTÊNCIA! Uma ideia materializada por uma mulher, mãe de 1 filho, grávida do segundo filho (passei o período da eleição grávida), dona de casa, normalista e agora presidente do grêmio e militante da AERJ.

A AERJ mudou tudo na minha vida. Primeiro, porque me fez sentir orgulho por eu ser MMM - MULHER, MÃE E MILITANTE. Segundo, porque minha idade não era motivo de vergonha, velho é quem pensa que é. Terceiro, porque me fizeram entender que a AERJ somos nós.

Lutamos contra o fechamento das escolas e graças a pressão dos setores da educação o fechamento foi barrado, lutamos contra o corte do RioCard Federal e conquistamos a Lei do passe livre para esses estudantes, fizemos vários debates nas escolas, aumentando o senso crítico dos alunos e conquistamos a volta do café da manhã no meu colégio.

Enfim, dá pra ser mulher, mãe, normalista e militante?
Se você acha que o sistema educacional tem deprimido estudantes, dá!
Se você acha que a educação é um direito e não um favor, dá!
Se você acha que a escola deve respeitar a diversidade, dá!
Se você acha que a escola deve ser um espaço de promoção à cultura, dá!
Se você acha que a maior parte da escola é composta para os estudantes, então ele que define a escola que ele quer ter, dá!
Se você acha que o curso integral deve ter as 3 mínimas refeições diárias, dá!
Se você acha que precisa ter privacidade pra usar o vaso sanitário, precisa de papel e de torneira pra lavar as mão, dá!

Tudo depende da sua vontade de mudar a realidade das pessoas.

Enquanto a educação for um privilégio, lutar é um direito!



                                Eunice Brasil, 29 anos
Militante da AERJ em Magé, Baixada Fluminense.
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