A crise da educação no Brasil

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"A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto."
Darcy Ribeiro disse essa frase em 1977, momento em que voltava do exílio à que tinha sido mandado pela ditadura militar e o país ainda vivia um período ditatorial. 
Quase 40 anos e um golpe depois, a frase ainda é atual.
A estratégia dos governos, sobretudo a do ilegítimo governo Temer, é simples: a educação pública é sucateada, a privada é enaltecida, até que a solução óbvia pareça a privatização.
E à quem serve essa privatização?
O Ministério da Educação, sob o governo de Mendonça Filho, publicou recentemente um ranking de acordo com as médias do Enem por escola em 2015. Das 100 escolas, 97 eram privadas.
Mas não eram privadas só porque o ensino público é sucateado, mas também porque o MEC publicou esse ranking sem incluir os Institutos Federais, que ocupam geralmente os primeiros lugares.

No meio desse cenário, as propostas recentes desse governo para a educação surgem coincidentemente ou não como uma aparente solução.
A omissão da posição dos IFs deixa claro uma coisa: com investimentos e recursos, é possível uma educação melhor, e não deixar que saibam disso é conveniente pra quem lucra com o modelo privado.
Enquanto os alunos das escolas ao redor do país no primeiro semestre de 2016, principalmente nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, ocupavam suas escolas pra reivindicar recursos básicos como comida e infraestrutura, e enquanto os professores da rede estadual do Rio e da rede municipal de diversas cidades não recebiam seus pagamentos em dia e se organizavam em greves e manifestações, a Kroton, empresa que atua no setor da educação, lucrou mais de R$1,39 bilhões em 2015.

Esse processo serve pra sustentar uma lógica em que o lucro de poucos é o objetivo principal, ainda e principalmente se ele for gerado em conjunto à desumanização de muitos no ambiente escolar.

Uma das profissões com maior índice de suicídio é a profissão de professor e o grupo que mais se suicida no geral na sociedade brasileira é o grupo de jovens até 19 anos. Professor e aluno, portanto.

Isso tudo porque num ambiente em que o foco é entrar no funil do vestibular, o que é humano não cabe. E esses ambientes superlotados, somado às condições salariais e aos abusos à que os professores são submetidos, são os ambientes mais propícios pro desenvolvimento de quadros de depressão e ansiedade por parte desses trabalhadores.

Além disso, a pressão em relação ao convívio social e à necessidade de fazer escolhas muito importantes quando muito jovens, juntamente da noção deturpada e elitizada de que ter graduação é sinônimo de "ser alguém" (ainda que, no Brasil, saiam mais trabalhadores do ensino médio do que das universidades), e tudo isso enquanto as dificuldades e especificidades são ignoradas, cria ambientes em que o desenvolvimento humano e os afetos estão em segundo plano. É compreensível e óbvio que esses jovens também estejam deprimidos.

Dentre eles, duas das causas compreendidas como as mais comuns pra depressão são questões relacionadas à gênero e sexualidade. 

Num país em que propostas como a do Escola sem Partido ganham força, visando tirar da escola a responsabilidade do ensinamento crítico e pretendendo boicotar o ensino de quaisquer matérias que fujam de uma lógica teocentrada, como evolucionismo, o tão urgente debate sobre gênero é uma realidade ainda mais distante.

Se posicionar a favor dessa ótica privatizadora é fechar os olhos pra realidade do adolescente sem o direito de sonhar e viver.

A crise da imposição da vontade das elites em detrimento dos direitos populares não é uma crise, é um projeto. E um projeto alienante e anti-democrático.

Julia Vilhena
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